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FERNANDO ALAGOA

Blogue Oficial

FERNANDO ALAGOA

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17
Out16

Mendil

Nas minhas deambulações pela cidade, cruzei-me há dias com dois barões das avenidas, o mesmo será dizer com dois ilustres proprietários de hotéis de cartolina, com quem me sentei à conversa. Entre palavras soltas retiradas com grilhetas esforçadas, atento ao desfile de manequins e vaidades, enquanto geríamos o silêncio, arremessei os olhos contra uma morena quarentona e bonita que se espraiava por uma das inúmeras mesas da deliciosa esplanada, e, se entretinha a sufocar com mimos um cãozito enfezado que acomodava ao colo. Dei por mim a pensar, com angústia, mas também com alguma graça, que é preferível ser cão a ser mendigo. Talvez pudéssemos criar uma moda de passear mendigos pela trela. Ou talvez fosse possível construir um “mendil” camarário para os ilustres barões do nada. Assim, além de um lugar onde se pudessem abrigar, teriam cuidados e mimos diários ao desbarato, concedidos pelos inúmeros voluntários que geralmente povoam os campos de concentração reservados aos digitígrados domésticos.

Comecei a imaginar o Joel (um dos mendigos presentes) ao colo da morena, com uma coleira colorida pelo pescoço e uma fatiota canina pelas costas. Ela coçava-lhe a barriga e ele abanava a perna com alegria e satisfação. Indubitavelmente, eu preferia as festas na cabeça. Os meus olhos já recompostos da beldade trigueira sorriam com prazer.

Ao longe, um cavalheiro com ar fidalgueiro passeava o seu inglês e notável buldogue, que de imediato se transformou num mendigo anafado arrastando-se pela trela. À nossa frente uma senhora que desfilava com o seu poodle emplumado, baixou-se para acariciar e beijar o seu queridinho, com quem trocou palavras ininteligíveis: bubuh, cucuhcu, shushu, biribu, cucuc, bubuc…

Ocorreu-me então a ironia da situação. Uma sociedade precisa de se preocupar e atender a inúmeras necessidades, mas não deixa de ser estranho que sejamos capazes de dedicar mais atenção aos animais do que às pessoas. Na verdade, qualquer dos casos me parece absolutamente triste. Mimamos os animais como se através deles nos mimássemos a nós próprios e, na falta de uma outra pessoa com quem partilhar a vida, personificamos o lulu ou o bichano, complementando assim aquilo que nos falta. Amamos o bicho, ou o outro “eu” que ele representa, e, simplesmente, descartamos as pessoas.

© Fernando Alagoa
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