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FERNANDO ALAGOA

Blogue Oficial

FERNANDO ALAGOA

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12
Jan15

Coisas de que já não me lembro

Claude Lévi-Strauss, afirmou um dia: «Embora vá falar acerca do que escrevi – os meus livros, os meus artigos e outros trabalhos -, acontece que, infelizmente, esqueço o que escrevo quase imediatamente depois de acabar.» Embora esta afirmação se prenda com um pensamento muito próprio, sempre a considerei estranha – esquecermo-nos do que escrevemos? – mas hoje, já não penso bem assim. De facto, uma ou outra vez, tenho sido abordado sobre os meus escritos, e nem sempre consigo responder de acordo com o esperado, pura e simplesmente, porque já não me lembro. Não considero, como Lévi-Strauss, "que os livros sejam escritos através de mim”, embora acredite que, “cada um de nós é uma espécie de encruzilhada onde acontecem coisas”, mas a verdade é que me esqueço, embora por motivos diferentes, presumo. É um esquecimento que advém da dificuldade de controlar a própria criação e que lhe é por isso inerente. Nenhum pai se esquece do seu filho, mas após algum tempo, ele ganha vida própria, emancipa-se, e, a confusão que se estabelecia, gerada pela dependência, perde-se para se ganhar uma vida completamente distinta. É isso que sinto com os meus livros. A criação é possessivamente afectiva, por vezes egoísta e até paranóica, por isso refiro, quando questionado sobre o assunto, que a obra de que mais gosto é a última, a que tenho em mãos, aquela de que sou simultaneamente criador e “espectador”. Depois dessa fase, a obra ganha vida própria através de cada leitor, que a transforma e lhe dá o cunho do que acontece na encruzilhada da sua própria vida. Tal como a um filho, emprestei-lhe apenas o meu ADN, é meu, mas libertei-o e libertei-me da posse que exercia sobre ele. Amo-o e lembro-me dele a todas as horas do dia, porque faz parte de mim, mas já não controlo todos os aspectos da sua vida, por isso, não estranhem que não me lembre deste ou daquele aspecto, porque ele agora, é vosso.

© Fernando Alagoa
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