Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

FERNANDO ALAGOA

Blogue Oficial

FERNANDO ALAGOA

Blogue Oficial

01
Fev16

Autómatos

Os caminhos que a vida me vai traçando, levam-me agora a percorrer as ruas nocturnas da cidade, num abraço terno de idas e voltas.

Sigo em passos lentos mas firmes, cruzando ruas e vielas esquecidas pelos homens e engalanadas com cubículos móveis e coloridos.

Às vezes, cruzo-me com janelas de luz que trazem seres humanos dependurados, alienados e rendidos aos encantos luminosos.

Olho em redor e sinto-me um náufrago naquele mar de luzes indiferentes, que atravessam ruelas escuras, entediadas e sós.

No dragão mecânico que trespassa as entranhas da cidade, o alheamento é mais notório porque o espaço concentra os ocupantes.

Os entes não trocam palavras nem cruzam olhares, seguem absorvidos pelos quadrados cintilantes que lhes sugam os olhos, os tímpanos e os miolos.

Olham indiferentes e desconfiados quando alguém se movimenta dois milímetros e lhes rouba a frenética concentração.

Manifestam o seu descontentamento com esgares impacientes e agressivos.

Só, no meu canto, contemplo sem admiração aquela triste e desfalecida paisagem, onde não existem cheiros, nem toques, nem piscadelas de olhos, nem sorrisos, nem bocejos, nem luz, nem nada.

As pessoas estabelecem relações consigo mesmas onde o outro não tem lugar. Vivem numa ilusão de existências subjugadas pelas máquinas em que elas próprias já se tornaram.

Fui surpreendido pelo olhar de uma garota, bonita e sorridente. Naquele momento pareceu-me que os nossos pensamentos se cruzavam numa crítica silenciosa sobre uma verdade inquieta.

Afinal, percebi que não existia qualquer cumplicidade no seu olhar, que nem sequer me era dirigido, galopava sôfrego, sobre mim, numa tentativa de absorver o ecrã que se divertia por cima da minha cabeça.

Talvez já não sejamos humanos!…     

© Fernando Alagoa
Editoras
Leya Escrytos
Alphabetum