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FERNANDO ALAGOA

Blogue Oficial

FERNANDO ALAGOA

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15
Set14

As eras da evolução

Costumo dizer que atravessei todas as eras da evolução.

Comecei a brincar com paus, pedras, bolas, latas de conserva e caricas. Estávamos em 1969, nos Estados Unidos o homem pisava pela primeira vez o solo Lunar. Será?

Depois, vieram os brinquedos de madeira, os cavalos de pau e os camiões quase tão grandes que davam para colocarmos o mundo lá dentro. Os carros de rolamentos fazem parte deste período e as quedas monumentais também. 

Mais tarde, chegaram os carros de folha e com eles os motores de corda que suscitavam a descoberta da engenharia mecânica e também dos cemitérios de veículos. Quando os desmanchávamos para concertar (ou desconcertar), podíamos ver que eram feitos de latas de conserva de tamanho gigante. Alguns de vós recordam-se certamente das latas de banha de 5 quilos, que era depois vendida a peso!? 

Estava à porta o 25 de Abril e a liberdade ilusória. Chegaram os carros miniatura e os soldados de chumbo deram lugar à revolução do plástico.

A referência ao Vauxhall em “Os Senhores do Universo e o Milagre de Fátima” é a evocação destes tempos e a um destes carros que costumava estar estacionado numa das ruas por onde, em criança, vagueava em eternas brincadeiras. 

Um carro, ainda hoje envolto em mistério.

O carro estava sempre estacionado na mesma rua e no mesmo sítio. Estava sempre impecavelmente limpo e reluzente, apesar de estar na rua, sujeito a todas as atribulações e intempéries. Nunca ninguém o viu sair do mesmo sítio. Nunca ninguém viu o seu condutor.

Como se mantinha sempre limpo, um segredo que nunca ninguém desvendou!?

Um dia o carro apareceu sujo e foi alvo de generalizada estranheza.

Num outro dia, os pneus apareceram meio vazios e a estranheza já não foi tão grande. A sujidade há dias que continuava a amontoar-se.

Depois, os vidros começaram a descair e um belo dia a porta estava aberta.

Tentação...

Desengatada a mudança, colocado o travão de mão em posição de lançamento, mãos no volante e estava pronto para o passeio. 

Vruuummm….

Assim houvesse quem estivesse disposto a substiuir-se ao motor. 

Mas aquela pérola não podia ser deixada naquele estado, carecia de uma limpeza e de ar nos pneus. 

Mãos à obra rapaziada, afinal, trata-se do nosso automóvel!...

O nosso automóvel…!? Ilusões pueris.

No dia seguinte o automóvel desapareceu.

De quem era o carro? Porque o deixaram chegar aquele ponto de degradação? Quem o levou?

Restou-nos o mistério. 

Até hoje, ninguém soube o que aconteceu.

E assim, o misterioso desaparecimento do automóvel passou a fazer parte das recordações de miúdos traquinas e sonhadores.

Eu sempre acreditei que o carro não queria ser carro, queria ser criança e, naquele dia, concretizou o seu sonho, por isso nunca mais ninguém o viu. 

© Fernando Alagoa
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